Por Gustavo Costa
Quem é que ouve Chico Science & Nação Zumbi e não se encanta com a poesia pernambucana, a poesia que nos trás a imagem do manguezal como um símbolo de afirmação e resistência dos pernambucanos. O movimento Mangue Beat acompanhado pelo Manifesto dos Caranguejos com Cérebros veio como uma porrada na cara da indústria musical, ou seja, um som regado de regionalismo, misturando Maracatu, Groove com elementos do Rock e Hip-Hop, mostrando e afirmando que a grande Recife tinha algo a passar ao mundo. “Recife cidade do mangue onde a lama é a insurreição, onde estão os homens caranguejos?...” (Chico Science, Antene-se, 1994).
A poesia regional do grande Chico nos trás a idéia de que não damos a devida importância onde realmente estamos, onde nascemos e onde nossos valores e tradições estão enraizadas, principalmente no Mato Grosso do Sul, onde me encontro. Não falo de maracatu ou do próprio movimento mangue beat como uma verdadeira produção cultural brasileira, pelo fato de que não existe cultura pura e a agregação de valores de culturas para culturas é algo natural. Mas falo como afirmação de um regionalismo, um manifesto onde as letras seriam o que o pernambucano ou o nordestino fala no seu dia-a-dia, dialeto que podemos encontrar em grandes obras de gênios da literatura como Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, que particularmente acho divino. Um manifesto que fez eco em filmes nacionais expondo ao mundo a riqueza de nosso nordeste, um nordeste em que não existem só belas praias e lugares exóticos mais sim onde pessoas lutam pela vida digna e com seus valores e tradições sempre acesos em sua alma. Um olhar crítico lançado sobre as desigualdades que acontece até os dias de hoje com o povo dos grandes sertões.
Digno é a atitude que os gênios da Manguetown se propuseram a fazer, dizendo ao mundo que em Pernambuco existe um movimento onde a tradição se mistura com a dita globalização. E neste contexto não me ateio a dizer só sobre Chico e Nação Zumbi, mas a todas as manifestações musicais, conseqüentemente culturais que aconteceram em Pernambuco com bandas como Mundo Livre S/A, Mestre Ambrósio, Cordel do Fogo Encantado, Arrastamangue e tantas outras que compõem a cena do Mangue.
Algumas Referências:
MENDONÇA, Luciana F. M. (2004), Do mangue para o mundo: o local e o global na produção e recepção da música popular brasileira (Tese de Doutoramento). Campinas: Unicamp.
MENDONÇA, Luciana F. M, (2007), Música pop(ular), diversidade e identidades: o manguebeat e outras histórias. Oficina do CES nº 275.
PICCHI, Bruno, Uma Geografia do Mangue: Movimento Manguebit, Josué de Castro e Neoregionalismo.
Alguns Discos:
CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI, Da lama ao Caos, Chaos/Sony Music (1994).
CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI, Afrociberdelia, Chaos/Sony Music (1996).
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